Irá Carvalho: 35 anos dedicados ao entretenimento baiano

Aos 25 anos, em 13 de julho de 1984, Irailda Carvalho de Jesus, ou irá Carvalho como todos conhecem, começou oficialmente  a sua carreira de produtora cultural. O show era “Fullgás”, de Marina Lima, que lotou o Teatro Castro Alves por 3 dias. Mas sua paixão pela música começou muito antes, ainda na década de 70, quando ela assistiu ao seu primeiro show: Gil e Jimmy Cliff, em uma casa de show na Cidade Baixa, onde ela passou grande parte da sua infância. Filha mais velha de uma família de 8 irmão, 5 deles produtores como ela, Irá sempre foi apaixonada por música e conta que ainda na infância era a agitadora cultural na escola. “Eu sempre gostei de organizar festas e eventos, ainda na escola. Quando tinha festa da primavera ou dia das mães eu estava lá ajudando na decoração, na divulgação. Sempre estava envolvida com arte”, lembra.

Em 1984 ela montou uma produtora, a Shock Produções, com o seu ex-marido, que apresentou o mundo para produção para ela, e, de lá para cá, ela trilhou a sua própria história. Na Shock, fez shows memoráveis de grandes artistas do cenário MPB e pop-rock. Desde os nacionais, como Paralamas, Titãs, Legião Urbana, Barão Vermelho, Biquini Cavadão, Ira, Camisa de Vênus, Kid Abelha, Cazuza, Lulu Santos, Djavan, Marisa Monte, Beto Guedes, Toquinho, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, entre tantos outros. Até internacionais, como o A-Ha, no Centro de Convenções da Bahia, em 1991. “Foi uma experiência incrível fazer esse show. O primeiro show internacional, que nos ensinou muito. Montamos uma mega estrutura para receber uma equipe de mais de 100 pessoas e deu tudo certo”, conta.

Na sua trajetória, depois da Shock Produções, Irá correu o Brasil com o cantor Netinho, logo após a sua saída da banda Beijo, na década de 1990; em 2001 foi para a Maianga Produções; e em 2005 criou a Íris Produções, a empresa que hoje se confunde com a história da sua vida. “Olha, das bandas nacionais, diria que fiz quase todas”, diz Irá Carvalho. Porém, lembra que teve um show que ela adoraria ter produzido, mas que infelizmente não conseguiu que era com o Tim Maia. Ela ainda confessa que se sente um privilegiada por ter produzido shows de artistas os quais ela era fã. “Sempre fui fã de Caetano Veloso e Gilberto Gil e a oportunidade de fazer um show deles foi de grande realização”, conta. 

Eu sempre gostei de organizar festas e eventos, ainda na escola. Quando tinha festa da primavera ou dia das mães eu estava lá ajudando na decoração, na divulgação. Sempre estava envolvida com arte

Irá Carvalho

Nessa estrada muitas histórias boas e engraçadas, muitos shows marcantes, muitas emoções, muitas amizades que ela leva para a vida durante todo esse tempo.  Mas, nem tudo foram flores. Irá conta que na década de 1990 passou por grandes dificuldades com o boom da axé music. “Focamos nos shows de pop-rock e quando o axé veio com tudo, passamos uma fase de muita dificuldade, com shows vazios de artistas que antes lotava. Perdemos muito dinheiro”, relembra. Mas, isso (ou qualquer outra intempérie) nunca foi motivo para Irá Carvalho desistir da carreira. Ao contrário, era um incentivo a pensar em novas formas de driblar as dificuldades e continuar a fazer o que ela sempre amava. “A gente começou a juntar os artistas, fazendo show com uma atração do cenário pop e outro de axé, como forma trazer o público de volta aos shows”. Foi daí que nasceu, por exemplo, o Rock Concha, que teve a sua primeira edição em 1989, marcando Salvador, também, como o local do rock ‘n roll.

Além de muitos shows, Irá foi responsável por muitos projetos: o Rock Concha, como citado, além do “ Projeto Astral”, em 1992, que trouxe, entre outros artistas, a Elba Ramalho; “Encontros de Verão”, em 2006/2007, que unia no mesmo palco artistas consagrados durante o verão de Salvador, como Los Hermanos e Adriana Calcanhoto, Jau e Caetano Veloso, Zeca Baleiro e Zélia Duncan,  Flávio Venturini e Vander Lee, e voltou em duas edições no ano de 2011, com Daniela Mercury e Titãs, Jammil e Paralamas do Sucesso; “Circuito das Artes”, que unia música, artes plásticas, cinema, teatro, dança, moda etc, com atrações como Frejat, Toni Garrido, Jau, Marina Lima, Thai, Zé Ramalho, Zeca Baleiro, entre outros; “Sintonia Musical”, em 2009, em parceria com a Uny Eventos, reforçando a força rock com CPM 22, Vivendo do Ócio, Os Algas e Hardcall; “Baile dos Mascarados”, em 2011, que resgatava os antigos carnavais, no Clube do Fantoche da Euterpe, em três edições e shows de Lenine, Moraes Moreira, Otto, Baiana System, Márcia Castro e Trio 3 na Folia (formado por Manuela Rodrigues, Cláudia Cunha e Sandra Simões) – [VER GALERIA ABAIXO].

Parte desse seu amor pela produção, também passa por uma conexão com Salvador, terra que ela ama e que, apesar de ter recebido inúmeros convites para trabalhar fora da cidade, nunca os aceitou pois sempre acreditou que seu trabalho só fazia sentido aqui. “É muito difícil de trabalhar com produção de shows e eventos em Salvador, mas eu sempre acreditei e sempre busquei transformar o cenário local, em trazer atrações que o público de Salvador merecia”. Baiana convicta, daquelas que veste branco toda sexta-feira, Irá é ciente sobre o que teve que passar na sua trajetória por ser uma produtora baiana, negra e mulher. “Sofri muito preconceito, especialmente por ser mulher. É uma profissão dominada pelos homens, principalmente se você trabalha como eu, negociando para trazer bandas, lidando com empresários. Mas, eu nunca tive medo de me jogar. Hoje, tenho mais consciência por conta de todo esse debate sobre empoderamento”. Irá conta que já foi barrada por seguranças na portaria de shows produzidos por ela e tem consciência dos traços culturais carregado pelo racismo: ”já fui barrada por segurança na porta de show meu, pois ele não imaginava que eu poderia ser Irá Carvalho, mas eu não culpo o segurança, sei que isso são traços culturais de anos”.

É muito difícil de trabalhar com produção de shows e eventos em Salvador, mas eu sempre acreditei e sempre busquei transformar o cenário local, em trazer atrações que o público de Salvador merecia

Irá Carvalho

Irá Carvalho define a sua trajetória em três palavra: “oportunidade, dedicação e fé” e tem muito orgulho de tudo isso que construiu. Fez amigos da música, como Bi Ribeiro, a quem ela chama de “um grande irmão”, José Fortes, empresário de Os Paralamas, que é padrinho de seu filho, Jorge Vercillo, “fiz quase todos os shows dele em Salvador e tenho uma amizade e carinho muito grande por ele”, além dos não famosos que encontrou pelos bastidores  e fazem parte da sua vida até hoje.

Irá Carvalho completa 60 anos hoje, 12/08, e está longe de pensar em parar: “Enquanto eu estiver bem, principalmente com o meu físico, eu vou trabalhar. Se eu puder, trabalharei até os 80 anos, depois posso pensar em parar, ir para o interior e deixar tudo aí para meus filhos continuarem”, fala. Por falar em filhos, Irá se considera uma mãe leoa e o legado de produção da família perdurará, se depender de Mariana de Jesus e João Paulo, produtores já conhecidos em Salvador.


Confira o primeiro de uma série de vídeos que estamos preparando para a comemoração desses 35 anos de carreira de Irá Carvalho. Acompanhe por aqui e em nossas redes sociais.

CRÉDITOS: Roteiro/Pesquisa de Acervo: @gavetadopensamento \\ Captação de Áudio e Vídeo/Edição: @voltadomundo.producoes \\ Make: @manuelabramont \\ Agradecimento à Rose Lima, e toda equipe do Complexo TCA, por disponibilizar que a gravação fosse realizada na Concha Acústica.

São 35 anos de história, contada em umas boas imagens que separamos para vocês.