Show no Rio mostra a habilidade de Gessinger na ‘infinita highway’ pop

Humberto! Humberto!”, gritou o público que encheu pista e camarotes do Vivo Rio assim que as luzes da casa carioca foram apagadas, sinalizando o início da estreia nacional do show Desde aquele dia – A revolta dos Dândis 30 anos. Humberto era o cantor, compositor, músico e escritor gaúcho Humberto Gessinger, carismático líder e mentor de uma das bandas mais populares do rock brasileiro projetado nos anos 1980, Engenheiros do Hawaii, em recesso por tempo indeterminado desde 2008. Gessinger subiu ao palco do Vivo Rio na noite de ontem, 17 de março de 2017, para celebrar os 30 anos do lançamento do segundo álbum do grupo, A revolta dos dândis (1987), icônico disco de existencialismo diluído em cancioneiro autorreferente que estabeleceu imediata empatia com o público adolescente da época.
Como Gessinger, atualmente com 53 anos, esse público envelheceu sem perder a conexão com o disco. Na turnê Desde aquele dia, Humberto repisa com firmeza a infinita highway, tocando na primeira parte do show todas as 11 músicas do álbum A revolta dos dândis com o power trio que formou com Nando Peters (guitarra e violão) e Rafael Bisogno (bateria e percussão). Na sequência, o roteiro alinha outros sucessos dos Engenheiros do Hawaii com as três músicas (até então) inéditas na voz de Gessinger e gravadas no recém-lançado EP Desde aquela noite (2017).
Em vez de simplesmente requentar o repertório com arranjos clonados do álbum de 1987, Gessinger rebobina as músicas (fora da ordem do disco) com frescor, pegada e pressão. Impressiona, desde o primeiro número, A revolta dos dândis I (Humberto Gessinger, 1987), o coro forte e cúmplice do público, até previsível em sucessos como Terra de gigantes (Humberto Gessinger, 1987), mas inesperado em lados Z da banda – para repetir termo usado pelo artista em cena – como Guardas da fronteira (Humberto Gessinger, 1987) e Quem tem pressa não se interessa (Humberto Gessinger e Carlos Maltz, 1987).
Em essência, Desde aquele dia é show de rock. Mas esse rock pop adquire clima folk à moda gaúcha em Vozes (Humberto Gessinger, 1987), com o baterista assumindo a percussão, o guitarrista tocando violão e Gessinger na guitarra. Esse salutar gauchismo é reiterado na segunda parte do show com o toque do acordeom (de Gessinger) que pauta Somos quem podemos ser (Humberto Gessinger, 1988) com clima sulista que também areja a balada 3×4 (Humberto Gessinger, 1999).
Instrumentista polivalente, o artista se reveza entre baixo, guitarra, acordeom e a gaita dylanesca que pontua Até o fim (Humberto Gessinger, 2003), música encaixada no set dedicado ao repertório do álbum A revolta dos dândis, assim como a balada Piano bar (Humberto Gessinger, 1991), encorpada com o coro forte da plateia. Talvez por ser majoritariamente de outra geração e outra era musical, essa plateia recebe com frieza Alexandria (2015), parceria de Gessinger com Tiago Iorc, o popstar do momento. A gravação de Iorc (superior à abordagem de Gessinger) parece ser ignorada pelo público do astro gaúcho, cujo nome voltou a ser gritado em coro pela plateia após o registro pesado de Eu que não amo você (Humberto Gessinger, 1999). De todo modo, o link de Alexandria com Pose (Anos 90) (Humberto Gessinger, 1992) é instante sagaz do roteiro fechado com O exército de um homem só (Humberto Gessinger e Augusto Licks, 1990) e Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones (C’era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones) (Mauro Lusini e Franco Migliacci em versão em português de Brancato Júnior, 1966), sucessos do álbum O Papa é pop (1990).
O roteiro autoral foi arrematado no bis com Faz parte (Humberto Gessinger, 1997) e Pra ser sincero (Humberto Gessinger e Augusto Licks, 1990). Ouça o que eu digo, não ouça ninguém: o show é ótimo. Humberto Gessinger tem sabido transitar com habilidade e inteligência pelas curvas perigosas da infinita highway sem sumir na poeira da estrada do pop rock brasileiro, como tantos outros cantores e grupos da geração 1980. (Cotação: * * * *)

 

 

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Eis o roteiro seguido em 17 de março de 2017 pelo cantor, compositor, músico e escritor gaúcho Humberto Gessinger (com os músicos Nando Peters e Rafa Bisogno) na estreia da turnê nacional do show Desde aquele dia – A revolta dos dândis 30 anos na casa Vivo Rio, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):

1. A revolta dos dândis I (Humberto Gessinger, 1987)

2. Infinita highway (Humberto Gessinger, 1987)

3. Até o fim (Humberto Gessinger, 2003)

4. Quem tem pressa não se interessa (Humberto Gessinger e Carlos Maltz, 1987)

5. Vozes (Humberto Gessinger, 1987)

6. Terra de gigantes (Humberto Gessinger, 1987)

7. Desde aquele dia (Humberto Gessinger, 1987)

8. Além dos outdoors (Humberto Gessinger, 1987)

9. Guardas da fronteira (Humberto Gessinger, 1987)

10. Refrão de bolero (Humberto Gessinger, 1987)

11. Piano bar (Humberto Gessinger, 1991)

12. Filmes de guerra, canções de amor (Humberto Gessinger, 1987)

13. A revolta dos dândis II (Humberto Gessinger, 1987)

14. Eu que não amo você (Humberto Gessinger, 1999)

15. Alexandria(Humberto Gessinger e Tiago Iorc, 2015)

16. Pose (Anos 90) (Humberto Gessinger, 1992)

17. Somos quem podemos ser (Humberto Gessinger, 1988)

18. 3×4 (Humberto Gessinger, 1999)

19. O que você faz a noite (Humberto Gessinger e Dé Palmeira, 1988)

20. Olhos abertos (Humberto Gessinger, Loro Jones, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Bozo Barretti, 1990)

21. O preço (Humberto Gessinger, 1996)

22. Dom Quixote (Humberto Gessinger e Paulinho Galvão, 2003)

23. O exército de um homem só (Humberto Gessinger e Augusto Licks, 1990)

24. Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones (C’era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones) Mauro Lusini e Franco Migliacci em versão em português de Brancato Júnior, 1966)

Bis:

25. Faz parte (Humberto Gessinger, 1997)

26. Pra ser sincero (Humberto Gessinger, 1990)

Fonte: Globo – G1